Ao fundar a Arlequim Technologies no final de 2021, a proposta foi fornecer computadores virtuais para resolver problemas que o hardware tradicional não solucionava. Depois de mais de três décadas desenvolvendo softwares e construindo infraestrutura de telecomunicações no Brasil, ficou claro, em especial durante a pandemia, que muitas empresas estavam reféns de um ciclo: comprar equipamentos caros, testemunhar sua depreciação, descartar e precisar substituir tudo alguns anos depois.
O Magic Quadrant 2025 da Gartner para Desktop as a Service acabou de dar peso a esta tese, com números que surpreendem até veteranos do setor. O custo total de propriedade de desktops virtuais na nuvem alcançou patamares menores do de laptops corporativos em diversos casos de uso. A virada aconteceu discretamente, mas as consequências mexem fundo na forma como empresas planejam gastos de TI.
Os números que ninguém esperava
A Gartner projeta que DaaS será economicamente viável para 95% dos trabalhadores até 2027, contra 40% em 2019. A mudança vem da associação entre três fatores: 1. os custos de infraestrutura na nuvem caíram, 2. os preços de laptops ficaram estáveis ou subiram, e 3. as despesas relacionadas à gestão do trabalho híbrido multiplicaram.
Quando você analisa o custo real de um laptop ao longo de três anos, os números mostram algo desconfortável: além do preço de compra, é preciso adicionar à conta o frete, a manutenção, os patches de segurança e a logística de descarte. Depois é preciso multiplica por centenas ou milhares de funcionários. Empresas que acreditam entender seus custos de hardware costumam subestimar o custo total, que inclui valores além da compra pontual do equipamento.
DaaS inverte essa lógica. As organizações pagam mensalidades que já incluem infraestrutura, manutenção, suporte técnico, atualizações de segurança e escalabilidade. A flexibilidade importa mais que o custo isolado em muitos casos. Precisa integrar 50 prestadores de serviço para um projeto de três meses? É só ativar 50 desktops virtuais e desativar quando acabar. Tente fazer isso com hardwares físicos e fique espantado com o prazo e o custo que vai consumir.
O mercado já reflete esse novo cálculo. A Gartner prevê gastos com DaaS subindo de US$ 4,3 bilhões em 2025 para US$ 6,0 bilhões até 2029, uma taxa de crescimento anual composta de 7,9%. A categoria, que passou anos como nicho; agora começa a se posicionar como padrão em infraestrutura de TI.
Padrões de adoção mostram testes cuidadosos
As empresas não estão trocando todo o parque de PCs da noite para o dia. A maioria começa implementando DaaS para casos de uso específicos: trabalhadores remotos, prestadores de serviço, equipes offshore, ambientes de alta segurança. A Gartner estima que 20% dos trabalhadores vão usar computadores na nuvem como ambiente principal de trabalho até 2027, o dobro dos 10% em 2019.
Segundo o estudo da Gartner, novas implantações estão quase exclusivamente usando DaaS, e implantações on-premises estão migrando para DaaS ou mudando para um plano de controle em nuvem.
A Microsoft domina o setor de acordo com a análise da Gartner, classificada como líder. AWS e Citrix também estão no quadrante de líderes, cada uma trazendo forças diferentes para implantações empresariais.
O comportamento da categoria sugere algo importante: DaaS funciona melhor quando empresas implementam de forma metódica, testando com grupos piloto antes de lançamentos mais amplos. A tecnologia amadureceu e a incidência de falhas caiu, mas a implementação ainda exige planejamento cuidadoso que considera variáveis como a estabilidade de internet necessária, latência e experiência do usuário.
Arlequim traz DaaS para o Brasil
Segundo levantamento da Credence Research, a América Latina responde por cerca de 5% da participação de mercado global de DaaS, com o Brasil liderando a adoção na região. Os números parecem pequenos comparados à fatia de 45% da América do Norte, mas as tendências de crescimento revelam outra história.
Empresas brasileiras enfrentam restrições que tornam o DaaS particularmente atraente. Importar hardware físico envolve tarifas, atrasos no frete e oscilações cambiais.
Conectividade, porém, continua sendo o gargalo prático. DaaS depende de internet banda larga estável – algo que não é realidade em todos os municípios brasileiros. Latência importa mais para desktops virtuais do que para outros serviços em nuvem. Uma conexão que funciona bem para e-mail e downloads pode fazer o trabalho do dia a dia parecer lento, com lacunas de tempo entre a digitação e o que aparece na tela.
A Arlequim fornece DaaS para apoiar as empresas brasileiras a lidar com as restrições do mercado nacional. Ao lado de parceiros estratégicos como Citrix, VMware, Omnissa, Microsoft, Fortinet e NVIDIA – de quem se tornou a primeira parceira brasileira a participar de atividades de Pesquisa e Desenvolvimento – , construiu uma arquitetura única que torna a utilização do DaaS simples e intuitiva por empresas de todos os tamanhos e segmentos de atuação.
O que o estudo de custos realmente significa
A descoberta da Gartner de que DaaS custa menos que laptops marca um ponto de virada, não uma linha de chegada. A tecnologia atingiu viabilidade para adoção em massa; se as empresas realmente vão aderir depende de fatores além da pura economia. Isso envolve mudança de paradigma.
Organizações com força de trabalho geograficamente distribuída, alta rotatividade de funcionários ou necessidades frequentes de escalar são mais propensas a adotar essa modalidade. Para aquelas com quadros estáveis ou requisitos de hardware especializado pesam fatores diferentes, em que benefícios como gestão simplificada e segurança concorrem com custos de transição.
Os próximos dois anos vão comprovar se as projeções da Gartner se tornam realidade. Se 95% dos trabalhadores realmente puderem usar DaaS de forma econômica até 2027, isso pode remodelar orçamentos de TI corporativa e o relacionamento com fornecedores.
O mercado brasileiro pode até ficar atrás das médias globais, mas segue padrões similares. Melhorias de infraestrutura continuam acontecendo, a conectividade está em constante evolução e as empresas brasileiras estão cada vez mais experientes com serviços em nuvem. A questão não é se o mercado empresarial brasileiro vai adotar mais desktops virtuais, mas em que velocidade as barreiras práticas e culturais serão superadas para viabilizar sua adoção.
Por enquanto, a equação de custos mudou. Ainda vamos descobrir o que as empresas vão fazer com essa informação.
Haroldo Jacobovicz, empreendedor e empresário
