Por que os mercados emergentes vão ultrapassar as nações desenvolvidas na computação sustentável
Matéria em inglês:
https://homebusinessmag.com/success-stories-lifestyles/haroldo-jacobovicz-says-emerging-markets-lead-sustainable-computing-revolution/
O senso comum classifica as nações emergentes em posição de desvantagem. Eu sempre encarei esse cenário como oportunidade.
Dedique um tempo ao desenvolvimento de negócios de tecnologia e seu ponto de vista vai mudar. Você vai deixar de enxergar o subdesenvolvimento como empecilho para o progresso. Em vez disso, vai perceber que localidades com este perfil ganham um componente raro e valioso: elas oferecem um ecossistema livre e sem vícios.
Os países em que a infraestrutura de conectividade foi construída de forma metódica ao longo de décadas, com investimentos altíssimos, ficam reféns dessa rede legada. A renovação automática de contratos de licenciamento. A gestão de espaços dedicados ao armazenamento de servidores. Departamentos de TI cuja única missão é cuidar da manutenção e não da evolução. O que parece ser alicerce para o desenvolvimento muitas vezes torna-se uma amarra para a inovação.
No Brasil essa infraestrutura é bem menos rígida.
O preço de chegar primeiro
Ao longo dos anos 1990 e do início dos anos 2000, os países desenvolvidos investiram pesadamente em tecnologia local. Hardware físico. Contratos de software de vários anos. Centros de dados projetados com base em premissas racionais na época, mas que se tornaram passivos atualmente.
O problema da infraestrutura legada é que substituí-la é tanto um exercício técnico quanto político. É lento, é caro e exige que as organizações desapeguem de sistemas que já não entregam o mesmo valor, mesmo depois de terem recebido bilhões de dólares em investimento. A maioria das instituições prefere evitar essa conversa.
O Brasil e mercados similares foram poupados disso. Aqui a adoção do celular foi tão rápida que ganhou espaço em relação à infraestrutura dedicada à telefonia e internet fixa. Os smartphones chegaram antes que a arquitetura antiga tivesse tempo de estar consolidada. A necessidade encontrou outro caminho. E esse caminho diferente acabou sendo melhor e mais adequado às inovações que estavam por vir.
Menos legado para desmontar. Menos investimento subterrâneo em cabos para preservar. A falta de infraestrutura nunca foi uma desvantagem. Acabou funcionando como vantagem disfarçada.
A verdadeira barreira sempre foi o hardware
Visão nunca foi o problema. Viabilidade financeira foi.
A virtualização em nuvem desloca o processamento para fora do dispositivo físico local e o leva para uma infraestrutura remota, em data centers. Uma máquina que estaria encostada pela baixa performance pode apresentar alto desempenho sem qualquer atualização física. Sem necessidade de aquisição de novos equipamentos. É possível abrir mão da recorrência do ciclo de substituição que impacta o orçamento. O hardware que as pessoas já possuem ganha sobrevida com capacidade de ponta, não porque foi melhorado, mas porque o poder computacional já não precisa estar dentro dele.
A Arlequim Technologies foi fundada exatamente sobre essa lógica. Não para vender equipamentos, mas para remover a barreira de custo que mantinha muitas pessoas afastadas da vida digital moderna. Quando o problema é olhado dessa forma, a resposta se torna simples. A tecnologia já existia. O que faltava era alcance. Levá-la até as pessoas que realmente precisavam dela, não apenas aquelas cujos orçamentos acompanhavam o ciclo de atualizações.
Um estudante trabalhando em uma cidade do interior. Um profissional em um escritório urbano totalmente equipado. Capacidade de computação idêntica. Qualidade de acesso idêntica. É isso que a inclusão digital realmente significa quando sai da linguagem de políticas públicas e entra nas decisões de engenharia.
O ciclo de atualização nunca foi universal
Mercados ricos tratam a substituição de dispositivos como rotina. Ciclos curtos de renovação. Ecossistemas de software projetados com a suposição de que os usuários continuarão comprando para acompanhar novas versões. Janelas de suporte, compatibilidade, atualizações de segurança, tudo é estruturado em torno de um cliente que troca de hardware regularmente.
A maior parte da população não se encaixa neste perfil de cliente.
Pequenas empresas com orçamentos apertados. Instituições públicas que convivem com recursos limitados. Usuários individuais para quem hardware é um investimento muito alto. O modelo padrão oferecido não foi pensado para eles. A virtualização torna esse modelo irrelevante. O dispositivo permanece. O desempenho melhora. O ciclo de substituição recorrente deixa de fazer sentido.
Mercados que ficaram à margem da antiga lógica de infraestrutura agora têm mais espaço para usufruir do que a nova lógica pode proporcionar. Há muito menos investimento subterrâneo envolvido, atrapalhando decisões. Menos resistência interna de equipes cujo valor depende de defender o status quo. O caminho adiante está livre justamente porque o caminho caro e complicado nunca foi seguido.
A necessidade constrói melhor do que o conforto
Mercados maduros se movem com cautela. De forma incremental. As mudanças chegam junto com lançamentos de produtos e campanhas de marketing, não a partir de uma demanda real.
Mercados emergentes operam sob um tipo de pressão completamente diferente. A necessidade está presente e é urgente. A escala é enorme. A sensibilidade ao custo molda cada decisão desde o início. Nada disso pode ser considerado desvantagem. É o que leva a uma adoção mais rápida de tecnologias que de fato se encaixam no uso pelas pessoas, em vez de tecnologias relacionadas a premissas do passado.
Quando o assunto é tecnologia, o Brasil sai na frente. As mesmas condições que antes tornavam mais difícil o desenvolvimento do país neste aspecto agora são condições que viabilizam o crescimento. Menos peso acumulado de sistemas legados. Menos infraestrutura cara demais para ser abandonada.
Quanto mais atrasado um mercado parece estar, mais ele acelera quando a solução certa aparece. Eu vi isso acontecer repetidamente ao longo da minha carreira. O que foi desvantagem agora tornou-se vantagem estrutural. E começamos a enxergar isso com clareza.
