Haroldo Jacobovicz sobre as exigências técnicas que impulsionam o crescimento dos games no Brasil

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Estima-se que existem mais de 103 milhões de gamers no Brasil, o que o país um dos maiores mercados de jogos do mundo.

Haroldo Jacobovicz, empresário brasileiro que passou décadas construindo empresas de tecnologia voltadas a resolver gargalos de infraestrutura, enxergou nesse cenário um próximo passo natural.

Nesta entrevista, ele fala sobre os requisitos técnicos que moldam o setor de games no Brasil e onde identifica oportunidades para provedores de tecnologia.

O que chamou sua atenção para a infraestrutura de games como uma nova frente de negócio depois de vender sua empresa de telecomunicações?
Após a venda, já tinha tomado a decisão de iniciar um negócio de virtualização de computadores. Eu sabia que o conceito ainda era muito novo para o consumidor individual. Por isso, comecei primeiro com foco no mercado corporativo e governamental. E, antes de entrar no mercado de varejo, passei um tempo analisando quais setores de tecnologia exigiam o maior nível de precisão em engenharia. Os games se destacaram imediatamente. Os requisitos técnicos são implacáveis. Quando trabalhei com infraestrutura de telecomunicações, medíamos o sucesso em confiabilidade e cobertura. Os games acrescentam uma dimensão completamente diferente: sensibilidade ao tempo medida em milissegundos. Essa precisão indicou que esse público poderia também estar mais aberto à inovação e mais propenso a ‘cocriar’ com a gente a solução, trazendo sugestões e críticas. Sempre fui atraído por desafios que levam as soluções ao limite. Então resolvi começar pelos gamers no varejo.

O mercado de games no Brasil cresceu de forma significativa nos últimos anos. Quais fatores contribuem com essa expansão na sua opinião?
Diversas forças convergiram. O acesso à internet teve uma expansão expressiva, a disseminação dos smartphones aumentou e a população jovem cresceu com o entretenimento interativo como parte do dia a dia. Quase três quartos dos brasileiros atualmente jogam online. As mulheres representam quase metade dos jogadores, indicando que isso deixou de ser um hobby de nicho há muito tempo. O apoio do governo, por meio de legislações recentes que oferecem incentivos fiscais, acelerou ainda mais esse crescimento.

Os games têm exigências técnicas diferentes das aplicações corporativas tradicionais, especialmente em relação à latência. Por que essas diferenças de milissegundos são tão importantes?
Pense em apertar um botão e esperar algo acontecer na tela. Em uma planilha, um pequeno atraso apenas incomoda. Em um jogo multiplayer, esse mesmo atraso significa ser eliminado ou perder a partida. Serviços de cloud gaming normalmente precisam de latência abaixo de 80 milissegundos a partir dos data centers. Jogadores competitivos frequentemente exigem respostas entre 20 e 50 milissegundos. O cérebro percebe essas diferenças mesmo quando não conseguimos identificá-las prontamente. Os jogadores abandonam plataformas que não conseguem oferecer esse nível de resposta.

Você já comentou que a maior parte da infraestrutura de nuvem não foi projetada para os requisitos específicos dos games. Como esse desalinhamento aparece na prática?
A maioria dos sistemas de nuvem foi desenvolvida para cargas de trabalho corporativas previsíveis. Alguém processa faturas, gera relatórios, envia e-mails. A demanda se mantém relativamente estável. Os games criam padrões completamente diferentes. É possível ter uso estável por semanas e, de repente, uma grande atualização é lançada e o número de jogadores se multiplica por dez da noite para o dia. A infraestrutura tradicional tem dificuldade em lidar com esses picos. Ou você superdimensiona e desperdiça recursos, ou subdimensiona e os jogadores enfrentam queda de desempenho exatamente no momento de maior entusiasmo.

Você descreveu os games como um dos desafios mais interessantes de infraestrutura e integração que já encontrou. O que os torna mais exigentes do que o trabalho em telecomunicações que você realizou anteriormente?
As telecomunicações exigem investimento intenso em obras de rede externa e manutenção para oferecer confiabilidade em grandes áreas geográficas. Para atender os gamers há vários desafios complexos e simultâneos. É preciso entregar baixa latência, escalabilidade, segurança robusta para transações financeiras e tudo isso com experiências fluídas exigidas pelos jogadores. Qualquer fragilidade nessa cadeia compromete a satisfação. O desafio de integração está em fazer esses diferentes sistemas funcionarem juntos sem que nenhum deles vire gargalo.

O Brasil aprovou recentemente uma legislação voltada especificamente ao apoio à indústria de jogos eletrônicos. Como você vê esse ambiente regulatório impactando o crescimento do setor?
A legislação de 2024 trouxe reconhecimento cultural junto com incentivos fiscais. Isso é mais importante do que muitos imaginam. Quando o governo passa a tratar os games como uma força cultural e econômica legítima, e não como um mero passatempo, o investimento acontece. Os estúdios conseguem planejar com mais previsibilidade. Empresas internacionais passam a enxergar o Brasil como um mercado estável, que vale a pena ser explorado de forma séria. Essa clareza regulatória sinaliza maturidade.

A escalabilidade é um grande desafio nos games, já que o número de jogadores pode disparar com atualizações ou eventos. Como os provedores de infraestrutura devem pensar em atender a essa demanda?
É preciso construir pensando no pico, mas operar de forma eficiente nos períodos normais. Isso parece óbvio, mas exige decisões de arquitetura que muitos provedores evitam, porque aumentam a complexidade. A computação de borda ajuda enormemente. Colocar capacidade de processamento em pontos estratégicos da rede, em vez de centralizar tudo, reduz a distância percorrida pelos dados e permite escalar regionalmente, e não globalmente. Os provedores que terão sucesso serão aqueles que projetarem soluções especificamente para padrões de demanda irregulares, em vez de tratar os games como qualquer outra carga de trabalho.

A segurança se tornou cada vez mais importante à medida que os ecossistemas de games lidam com transações financeiras. Quais são os principais desafios de segurança enfrentados pelo setor?
As economias virtuais agora movimentam dinheiro de verdade. O comprometimento de contas gera prejuízos financeiros sérios. Os jogadores esperam proteção sem atrito. Ninguém quer digitar códigos de autenticação enquanto os colegas aguardam para iniciar uma partida. Além disso, os games enfrentam desafios de integridade que outros setores não enfrentam. A trapaça compromete toda a proposta de valor. As soluções de segurança precisam lidar simultaneamente com proteção financeira, privacidade de dados e justiça competitiva. Poucas soluções existentes conseguem cobrir bem essas três frentes.

Você já sugeriu que empresas de tecnologia podem se posicionar como parceiras estratégicas, e não apenas como fornecedoras da indústria de games. O que essa distinção significa na prática?
Fornecedores entregam capacidade. Parceiros entendem o contexto. Quando você trabalha de perto com desenvolvedores e publishers para compreender suas dificuldades específicas, cria soluções alinhadas à realidade deles, e não ofertas genéricas que precisam ser adaptadas. Esse relacionamento gera dependência mútua. Eles passam a confiar na sua expertise e você ganha visibilidade sobre necessidades emergentes antes dos concorrentes. A indústria de games se move rapidamente. Empresas inseridas nesse ecossistema identificam oportunidades que observadores externos simplesmente não enxergam.

Você identificou várias oportunidades para empresas de tecnologia no setor de games, como computação de borda, análise de dados e segurança. Qual deles você considera mais urgente no contexto atual do mercado latino-americano?
As redes de computação de borda merecem atenção imediata. A América Latina ainda carece de infraestrutura distribuída suficiente para entregar a performance de latência que os gamers mais exigentes demandam. Empresas que implantarem recursos computacionais em pontos estratégicos da rede ao longo da região capturarão uma demanda significativa. A análise de dados vem logo em seguida. Os desenvolvedores precisam de plataformas capazes de processar volumes massivos de dados em tempo real para compreender o comportamento dos jogadores e orientar decisões. As capacidades de inteligência artificial já chegaram a um nível em que isso se torna realmente aplicável, e não apenas teórico.

Principais conclusões:

  • A infraestrutura de games exige latência em nível de milissegundos, com jogos competitivos demandando respostas entre 20 e 50 milissegundos
  • A infraestrutura tradicional de nuvem enfrenta dificuldades com os picos imprevisíveis de demanda dos gamers, que podem se multiplicar por dez da noite para o dia
  • A legislação brasileira de 2024 trouxe incentivos fiscais e reconhecimento cultural para a indústria de games
  • Quase três quartos dos brasileiros jogam games online, com as mulheres representando quase metade desse público
  • As redes de computação de borda representam a oportunidade de infraestrutura mais urgente na América Latina
  • As soluções de segurança precisam tratar simultaneamente proteção financeira, privacidade de dados e integridade competitiva
  • Empresas de tecnologia que se inserem no ecossistema de games conseguem enxergar necessidades emergentes antes dos concorrentes

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