A tecnologia tem o poder de transformar vidas, mas o ano de 2024 terminou com mais de 2,6 bilhões de pessoas no mundo ainda offline, o que mantém grande parte da população fora dessa realidade.
O empresário brasileiro e cofundador da Arlequim Technologies, Haroldo Jacobovicz, passou décadas construindo empresas voltadas a reduzir a distância entre o potencial digital e a realidade digital.
Nesta entrevista, ele compartilha sua visão sobre o que a inclusão digital genuína realmente exige e por que expandir o acesso vai muito além de simplesmente fornecer dispositivos e conectividade.
Nesta entrevista:
- Por que programas de alfabetização digital são insuficientes sem suporte contínuo
- A diferença entre tecnologia inclusiva e tecnologia que mantém a exclusão
- Como a virtualização de computadores pode prolongar a vida útil de dispositivos
- Outras barreiras que impedem as pessoas de participar da economia digital
- Modelos de parcerias eficazes entre empresas, governos e comunidades
- Lições da mudança repentina para o trabalho remoto no Brasil durante a pandemia
Programas de alfabetização digital costumam ser apontados como solução, mas você já afirmou que a inclusão exige mais do que ensinar habilidades. Como funciona o empoderamento digital significativo?
Ensinar alguém a usar um computador é apenas o começo. O verdadeiro empoderamento acontece quando essa pessoa consegue aplicar essas habilidades para melhorar sua vida, seja acessando informações de saúde, encontrando trabalho ou se conectando a oportunidades que antes estavam fora do seu alcance. O objetivo deve ser transformação, não operacionalização. Quando alguém adquire habilidades digitais e as utiliza para abrir um pequeno negócio ou ajudar os filhos com as tarefas escolares, a alfabetização se transforma em empoderamento. Isso exige engajamento contínuo, não um treinamento pontual que termina junto com o workshop. Quando os benefícios da tecnologia estiverem incorporados ao dia a dia da população, como recursos acionados continuamente e sem necessidade de apoio de terceiros, a inclusão começa a ser materializada.
Você comentou que a tecnologia não gera igualdade automaticamente para as comunidades. O que diferencia a tecnologia inclusiva da tecnologia que mantém a exclusão?
O diferencial está na intenção. Tecnologias desenvolvidas considerando diferentes perspectivas tendem a atender melhor um número maior de pessoas. Quando soluções são criadas pensando apenas em usuários que já possuem conexão estável e dispositivos modernos, milhões acabam sendo excluídos de forma involuntária. A tecnologia inclusiva é baseada na diversidade e considera diferentes fatores: acessibilidade financeira, contexto cultural e nível de conhecimento técnico do usuário. Ela se adapta às pessoas, em vez de exigir que as pessoas se adaptem a ela.
A Arlequim tem como foco melhorar o desempenho computacional sem exigir a compra de novos dispositivos. Como você chegou a esse modelo em vez de outras abordagens para ampliar o acesso?
Eu via o mesmo problema se repetir constantemente: pessoas com computadores antigos que funcionavam perfeitamente do ponto de vista físico, mas não conseguiam rodar aplicações modernas. Substituir essas máquinas gera desperdício e envolve custos que muitas famílias não conseguem arcar. A virtualização de computadores oferece um caminho diferente. A tecnologia processa tarefas mais pesadas remotamente e transmite os resultados na tela do dispositivo local, permitindo, por exemplo, que um notebook de oito anos funcione como um equipamento novo. O dispositivo passa a ser uma janela de acesso à alta capacidade computacional, e não um gargalo. Essa abordagem permite às pessoas acessarem o que precisam independentemente do equipamento que elas possuem.
Além de hardware e conectividade, quais outras barreiras você vê impedindo a participação plena das pessoas na economia digital?
A insegurança nas próprias habilidades é uma das maiores barreiras. Muitas pessoas ficam intimidadas pela tecnologia, preocupadas em fazer algo errado ou passar vergonha por falta de conhecimento. Essa barreira psicológica pode ser tão limitante quanto qualquer obstáculo físico. A linguagem também pesa, tanto no sentido literal quanto no uso excessivo de jargões técnicos que a população leiga simplesmente não entende. Há ainda a questão da exposição a hackers ou ações impróprias on-line. Pessoas que já foram vítimas de golpes tendem a encarar serviços digitais com cautela. Superar essas barreiras exige paciência. É fundamental adotar empatia no desenvolvimento das soluções considerando a forma como o usuário com diferentes perfis realmente usam a tecnologia, e não como engenheiros imaginam que elas deveriam usá-la.
Você destaca que o acesso exige suporte contínuo. Como é esse processo de apoio para alguém que está tendo contato com tecnologia pela primeira vez?
Tudo começa com o básico: conectar-se e entender como cada equipamento e conexão funciona é fundamental. Nada complexo – por exemplo, onde verificar se o dispositivo está conectado e como fazer teclado, mouse e fones de ouvido funcionarem. Depois vem o meio do caminho, que costuma ser confuso, quando a pessoa se depara com a primeira mensagem de erro ou apaga algo importante sem querer. É nesse momento que muitos desistem se não tiverem apoio. Esse processo contínuo inclui assistência técnica quando algo dá errado, materiais de aprendizagem que evoluem junto com o usuário e conexões comunitárias onde as pessoas possam fazer perguntas sem constrangimento. Com o tempo, o novo usuário ganha confiança e passa a ajudar os outros. Essa transição de receptor para colaborador é o que marca a adoção da tecnologia com consistência.
O Brasil avançou bastante em conectividade à internet, mas o acesso rural ainda está bem atrás das áreas urbanas. O que será necessário para fechar essa lacuna?
O investimento em infraestrutura continua sendo essencial, mas os desafios econômicos são grandes. Atender áreas rurais custa mais por usuário, o que dificulta a viabilidade dos modelos de negócio tradicionais. Fechar essa lacuna exige parcerias criativas. Subsídios governamentais podem compensar parte dos custos. Cooperativas comunitárias podem compartilhar infraestrutura. Tecnologias via satélite e redes sem fio estão evoluindo rapidamente e podem se mostrar mais viáveis do que levar fibra óptica a regiões remotas. A solução provavelmente combinará várias abordagens, adaptadas às condições geográficas e econômicas de cada local, em vez de uma resposta única.
Como você equilibra a viabilidade comercial com o objetivo de alcançar consumidores com menor poder aquisitivo?
Essa tensão moldou a forma como conduzi todos os negócios que construí. O ponto é que mercados mal atendidos frequentemente representam oportunidades reais. Empresas menores com orçamento limitado têm necessidades e estão dispostas a pagar por soluções que realmente melhorem sua produtividade. A chave está em desenhar estruturas de custo compatíveis com melhor custo-benefício. O atendimento ao Governo é outra maneira de levar o benefício a populações desatendidas. Por exemplo, em contratos com prefeituras ou secretarias de Educação as ferramentas tecnológicas muitas vezes melhoram o dia a dia de estudantes de escola pública ou cidadãos que usam serviços públicos.
Você fala sobre a importância da colaboração entre empresas, governos e comunidades para promover a inclusão digital. Como uma parceria eficaz funciona na prática?
Tudo começa com respeito genuíno pelo que cada parte traz para a mesa. As empresas contribuem com recursos e expertise operacional. Os governos criam marcos regulatórios e podem subsidiar o acesso onde o mercado sozinho não chega. As comunidades fornecem conhecimento local sobre o que as pessoas realmente precisam. Parcerias eficazes combinam esses pontos fortes sem que um ator domine os demais. As piores colaborações tratam as comunidades como receptoras passivas. As melhores incorporam a participação local desde o início e medem o sucesso a partir de resultados que fazem sentido para quem está sendo atendido.
A educação é frequentemente citada como uma das áreas mais promissoras para a tecnologia reduzir desigualdades. Que papel a computação acessível pode desempenhar nesse contexto?
Um estudante em uma área remota, com recursos computacionais adequados, pode acessar os mesmos materiais educacionais que alguém em um centro urbano. Isso representa uma mudança estrutural profunda. Mas o hardware, por si só, pouco resolve sem conteúdos pensados para diferentes estilos de aprendizagem e conexões de internet boas o suficiente para entregá-los. A computação acessível remove uma barreira importante, mas funciona melhor como parte de um ecossistema mais amplo, que inclui professores capacitados, currículos relevantes e apoio familiar. A tecnologia viabiliza a transformação, mas não a garante.
O trabalho remoto se expandiu significativamente durante a pandemia, mas você observou que muitos não estavam preparados para as exigências de infraestrutura. O que aquele momento revelou sobre o estado da inclusão digital no Brasil?
Ele expôs o quão frágil era a base existente. Empresas que funcionavam adequadamente com conectividade básica passaram a exigir conexões robustas e seguras, capazes de suportar videoconferências e ferramentas colaborativas. Muitas plataformas não tinham sido pensadas para usuários com conexões instáveis ou baixa velocidade de internet. A divisão entre quem conseguia trabalhar remotamente e quem não conseguia expôs as mesmas linhas de desigualdades econômicas já existentes. Ao mesmo tempo, aquele momento evidenciou a demanda. As pessoas se adaptaram rapidamente quando foi necessário. A crise deixou claro que uma infraestrutura digital adequada é essencial, não opcional. Reconhecer isso gerou um legado duradouro que acelerou a transformação digital e surgimento de inovações tecnológicas sem precedentes.
